sexta-feira, 23 de julho de 2010

Férias.

Assim como eu esperava, não pude escrever nos dias que se seguiram ao início de minha viagem. Talvez não tenha sido persistente suficientemente. Ainda assim, estranhamente, não senti uma grande vontade de escrever, foram poucos os meus momentos de iluminação.

Voltamos para casa amanhã.

Além dos três estados e várias cidades adicionadas a lista de lugares que conheci, levarei outros pontos destas férias comigo.

É completamente esquisito estar dentro do próprio país observando uma realidade extremamente diferente da que vivo. Vi favelas, pessoas pobres, casas devastadas com as recentes enchentes, crianças trabalhando sob o sol forte.

Poderia me ater a essas partes tristes ou simplesmente falar das muitas belezas, em sua maioria naturais, que vi aqui, mas não vou.

Apesar de toda a pobreza, não há tristeza. O povo nordestino é alegre e claramente orgulhoso de sua terra.

Fomos a Maragogi, nos sentamos num belo restaurante e fizemos o famoso passeio até as piscinas naturais. Quando voltamos, o restaurante estava pronto para fechar, éramos os únicos clientes.

Um garçom começou a conversar e contar-nos de sua terra, mencionou as muitas praias da região, os lugares que conhecia, os caminhos para chegar no litoral. Falou por um bom tempo. Sei que se tivéssemos deixado-o falar, ele poderia ficar ali por horas, com os olhos brilhando.

Morando numa cidade de interior do sul do Brasil, não estou acostumada a ver favelas e as más condições de vida da população, mas vejo todos os dias vários mendigos, pessoas que me assustam somente por seu cheiro e sujeira e que em algumas vezes estão drogados. São pedintes, que não percebem ou não fazem uso de suas condições físicas para trabalhar.

Não vi nenhuma dessas pessoas aqui. Todos estão dispostos a fazer alguma coisa, buscar seu sustento diário. Fazem artesanatos, pintam azulejos, vendem alimentos nas praias, cuidam de carros, são pessoas sofridas, mas vivem. Vê-los me faz reavaliar todas as vezes em que me revolto por minha situação, sem perceber que tenho tudo.

Além dos meninos que constantemente nos abordam nas ruas para “mostrar seu trabalho”, um homem me chamou atenção: caminhava por toda a orla da praia com dois mostruários, um para bijuterias e outro para brinquedos. Aparentemente, um vendedor ambulante comum, mas havia uma diferença: ele não tinha uma perna. Não estou procurando expressar nenhum tipo de preconceito aqui, principalmente porque creio não tê-lo. No sul, ao menos onde moro, não ter uma perna ou ser aleijado é motivo suficiente para sentar-se na calçada, esticar o braço e alegar um enorme sofrimento e incapacidade.

Todas as pessoas deveriam conhecer o povo nordestino. Todas as pessoas deveriam ser tão felizes quanto eles, ostentando ou não melhores condições de vida.

Para terminar, contarei uma outra história, provavelmente a que mais me impressionou. Fomos à Olinda (amei a cidade e todas as maravilhas arquitetônicas antigas) e por um acaso encontramos um guia turístico, uma homem da região, pobre provavelmente. Perguntamos quanto cobraria, sua reposta foi simples: “Desde obrigado a um milhão eu aceito.”

Passei naquele lugar provavelmente a tarde mais interessante da viagem. O homem tinha um enorme conhecimento sobre a história da cidade, do Brasil e dos monumentos. Esta foi a prova final. A condição social de um homem não significa que ele não será uma pessoa culta, uma boa pessoa. As barreiras entre as classes podem ser ultrapassadas, ou talvez, elas nem mesmo existam. Pagamos ao homem por vontade própria, por puro merecimento.

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