Digo-lhe, como disse-lhe Jesus, que todos morreremos. Não há
opção. Contudo, podemos sim escolher porque morremos. Morremos por câncer,
acidentes de carro e até falência múltipla dos órgãos (genial, nunca imaginaria
tal causa!). Mas acima disso, morremos porque vivemos. Morremos pelo simples
fato de que cumprimos nossa missão em um mundo que estava necessitado dela.
Entretanto, venho perguntar-lhe: cumprimos nossa missão diante de nós mesmos?
Embora pareçam semelhantes, o mundo e nós mesmos somos completamente distintos.
Não somos meros reflexos da sociedade em que vivemos, como dizem os
deterministas. Temos sonhos que despertam em nosso oculto interior, que desafiam
ao mundo e a nós mesmos. Cabe somente a nós decidirmos se os seguimos ou não.
Cabe a nós, a decisão de viver pelo mundo ou por nós mesmos - talvez seja possível
viver pelos dois, não sei. É necessário coragem para espalhar suas convicções,
desafiar as linhas padronizadas de vivência e de sucesso. É necessário coragem
para viver por si mesmo. Não trato de egoísmo, mas de egocentrismo.
Carpe Diem. Seize the
Day. Assim, em maiúscula, como ordenou que fosse o corretor de meu computador.
Em maiúscula, pois afirma-se o presente e sua importância, não somente para um
futuro glorioso, mas para a missão de nós mesmos. Para que sejamos satisfeitos
enquanto há tempo. Não nego o amanhã. Pelo contrário, afirmo-o. Contudo, tenho a certeza de que ele é produto
do hoje, assim como as geadas no inverno trazem fome no verão. Nessa linha de pensamento, por mais adverso
que seja o tempo, o mundo, existem as estufas, onde não penetra chuva, gelo ou
geada, onde a plantação cresce independente do que ocorre lá fora. Seguir a nós
mesmos é viver em uma estufa. É ter a certeza da abundância do amanhã e a sensação
de missão cumprida.
Trato tanto de morte, pois de vida tratam todos que não
compreendem que esta é o preparo para aquela, na qual estão as análises e
atestados sobre o que fizemos, na qual vivem nossos rancores e arrependimentos
e, com sorte, nossas conquistas e alegrias. Antes mesmo, afirmava que há uma opção de pelo
que morremos. Fazemo-na quando escolhemos entre ficar calados em discussões que
decidem o futuro, quando tememos gritar quem somos. Morremos porque alcançamos
a felicidade, porque falhamos nessa busca ou porque desistimos dela. Não
morramos pelo mundo e pelas imposições dele, pelo fracasso que corrompeu nosso
ego e nossos sonhos. Morramos por nós mesmos, por ter arriscado ouvir nosso
coração. Parece-me que a linha tênue entre vida e morte e morte foi extinta.
Quem sabe, ela nunca tenha existido.