sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Caro amigo,

Sempre odiei pessoas que tratam desconhecidos como se fossem pessoas íntimas, mas em razão do momento que compartilhamos, venho a chamar-lhe amigo, querido, meu bem. Não me atrevo a chamar-lhe amor, não por desconfiança minha, mas pelo temor que lhe faça sentir desconfortável.

Sento-me à mesa de um bar, sozinha como em todas as noites de sexta feira, bebendo minha gim tônica, escrevendo loucamente, inspirando-me no comportamento das pessoas: os risos forçados das moçinhas carentes e as cantadas enferrujadas dos homens de meia-idade que deixaram as esposas em casa. Imagino o que falam, o que pensam. Uma paixão intensa, um amor para vida inteira. Um caso insano, uma noite memorável.

Fico presa as batidas de meu coração. Escuto-as. Tic. Toc. É como um relógio, qualquer dia, a pilha acabará e bem, não poderei trocá-la. As lágrimas da solidão, ou de efeito do álcool em minha corrente sanguínea, começam a escorrer no instante em que você decide mudar minha rotina.

Senta-se na mesa ao lado com a moça dos olhos verde esmeralda. Jura que a ama. Diz que qualquer dia desses a pede em casamento, por que não saem escolher alianças? Seu sorriso aos poucos desaparece. São dolorosas as palavras que saem dos lábios cor de cereja. Ela diz que o ama, mas passou o tempo da paixão. Propõe a amizade. Você permanece tão estático quanto eu, vidrada em sua conversa. Perdoe-me por torturá-lo ao repetir esta triste cena. Ela se levanta e o abandona, prometendo ligar. Assisto formarem-se rugas entre seus olhos, claramente, para segurar o choro, que ao momento em que a garota sai do bar, se faz inevitável. As lágrimas escorrem por suas bochechas avermelhadas, seu lábio treme.

O que a discussão que ouvia tinha feito partir, agora voltava com maior intensidade, eu chorava pelos mesmos motivos bobos de todas as madrugadas e por você. Nossos olhares embaçados se cruzaram. Encarei-lhe sem a usual vergonha. Enxerguei sua alma de menino ingênuo. Senti meus pensamentos serem despidos em sua mente. Sentou-se a minha frente. Talvez você buscasse por consolo de uma desconsolada, talvez uma amiga a quem contar, talvez alguém para substituí-la. Eu nada buscava. Quem sabe um personagem, uma história para contar.

Os poucos minutos que passei a sua frente sem ao menos uma palavra dita foram os mais sinceros de toda minha vida. Todas as lágrimas escorridas significaram nada, minto, significaram a verdade. Não creio que você seja minha cara metade ou que algum dia seremos bons amigos. Você curou minhas lágrimas por misturá-las as suas, ensinou-me que jamais estarei sozinha, nem que minha companhia seja um estranho em um bar. Espero ter feito o mesmo por você. Espero que a garota dos olhos verdes perdoe-lhe ou que você ache alguém melhor que ela. Quanto a mim, também espero por alguém que me ajude a escrever minha própria história, ainda que saiba que ninguém me proporcionará um momento tão profundo quando aquele.

Levantei-me e saí com os olhos secos.

Com carinho e agradecimento,

A estranha amiga, se é que posso assim chamar-me.



PS: Tudo não passa de ficção, voltei ao tempo das histórias.

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