A lâmpada da garagem está sem a tampa em uma das laterais. Inevitavelmente, ao vê-la, invadem minha mente imagens de minha pequena figura a jogar uma bola grande laranja (posso até mesmo afirmar que custou R$1.69) fortemente contra parede, revivo a adrenalina disparada em meu corpo quando aquela tampa caiu após acertá-la. Escondi-a.
Chamam sentimentalismo material, minhas coisas queridas! Mas discordo. Doem-me as memórias - o medo de que se afastem, de mudar - e, uma casa guarda muitas delas. Se lar é a família, para mim, boba nostálgica, são também lembranças.
O guarda-roupa riscado com meu nome escondidamente, o bóton das meninas superpoderosas que usávamos para segurar a corrente da janela do banheiro, as caverninhas na cama da mãe, o quarto de visita que era uma loja, a nossa farmácia, quero dizer, o bar de meus pais.
Talvez eu seja assim para sempre. Sonhe que meus filhos virão à casa que fui criada e repetirão minhas artimanhas, será meu refúgio, o doce lar da infância, as boas lembranças.
Seria como uma ruptura a meus ingênuos planos, serei obrigada a crescer; não esquecerei os momentos, só não terei a prova de que eles ocorreram para, subitamente, fazer as travessuras atingirem minha mente.
Era só uma hipótese longínqua, mas hoje, bateu-me a porta como a realidade de amanhã. Mudança, por si só a palavra me causa um arrepio, que dirá a ação? Abandonar minha casa seria romper com minhas origens, correr o risco de esquecer tudo o que foi, fui. Basta que me belisque, me diga que mentem, o mundo será o mesmo, daqui dentro ou de um 17® andar apertado de um edifício qualquer. As memórias não fugirão, mas estarão mortas, como estará a casa.
Entre o meu ser detalhista e observadora, perdi-me nas circunstâncias. Um momento deixou de ser independente, passou a ser o como, com quem e especialmente, onde. Perdendo um dos elementos, tudo se esvai.
Aterroriza-me a idéia de alguém vivendo em meu espaço, que jamais será de outro, pertence a quem lhes foi fiel, confiou, por vezes junto a outras pessoas ou até mesmo em outras línguas – sei que compreendeu, seus maiores segredos e angústias, as lágrimas escondidas e os risos não permitidos.
Chorei quando cortaram as plantinhas da frente de casa, quando meu pai vendeu seu Vectra azul e recentemente, quando arrancaram minha casinha de bonecas do quintal. E que mar farei se me tirarem a real?
É provável que não compreenda as lágrimas, o medo que me escorre. Ah, saudosista dramática! Perdôo-lhe. Afinal, leitor impassível, somente entenderia o que sinto se pudesse ouvi-lo, vê-lo, e estou certa de que então, não só compreenderia, mas também seria capaz de sentir o doloroso abandono. Ah, se as paredes falassem....
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