sábado, 19 de março de 2011

Um brinde

Peço-lhe que não chore. Não sou jeitosa para contar más notícias, tampouco para recebê-las. Perdoe-me, sou mera informante.

Querido, quero que se lembre dos velhos tempos , sei que você ama fazê-lo. Sinta-se novamente nos tempos de escola, finja ser o velho personagem de seu gibi favorito ou do filme de faroeste, discuta sabores de sorvete com amigos cujo sobrenome é insignificante, sonhe em pular sobre uma nuvem de algodão, nadar em uma fonte de chocolate, ser jogador de futebol. Cante as canções de sua infância, esquecendo que mais tarde as desprezou. Permita-se errar e fazer perguntas indiscretas. Chore pelos motivos mais bobos, porque um delicioso doce caiu no chão, esqueça, pegue-o e engula, não tenha as neuroses de um adulto. Grite o mais alto possível e, por mais nojento que seja, faça competição de cuspe. Não se lamente. Sinta saudades por se afastar de seus pais em irmãos durante a escola. Dê abraços apertados. Acredite ser um astronauta e poder voar. Aprenda a tocar Asa Branca no violão, para dizer que é talentoso. Molhe-se nos dias de verão. Se puder, seja analfabeto novamente e enxergue o mundo de uma nova velha forma.

Cresça, seja adolescente com amores constantes, comentários bobos e problemas com espinhas. Chore por um coração partido, pelas entradas no cabelo que você sabia que um dia te fariam careca. Quase me esqueci, garotos não choram, então seja forte. Faça amigos, que você sabe que não permanecerão na sua vida.Fale besteiras. Core quando uma menina bonita conversar com você olhando fundo em seus olhos. Lute contra a indecisão do que fazer.

Enfim, relembre os tempos, quase presentes, de adulto. A sua profissão, que, por mais desgastante que fosse, você amava. O dia em que conheceu a mulher de sua vida, todos os maravilhosos dias que passou com ela. A manhã fúnebre da morte de seu cabeleireiro e amigo. Os filhos, anjinhos que você sempre amou. Ensinou-os a andar de bicicleta e contou-lhes suas histórias. As discussões que te fariam levantar e partir, depois de um último argumento falho. Esqueça as partes ruins, os perdões que você somente fingiu conceder, o colega de trabalho que te ofendeu e você, bobo e inexperiente, abaixou a cabeça.

E agora, choro.

Acalme-se, não é a morte que te aguarda, jamais seria suficientemente forte para anunciá-la.

Ainda assim, está acabado. Conheço-lhe tão bem quanto Deus, sei o quanto você insiste em não acreditar na existência Dele, e também os infinitos equívocos que habitam sua mente. Conheço o pessimismo de seu coração. Há um mistério, no entanto, para mim e estou certa, que também para você: como acabar com a amargura que te acompanha. Passei a acreditar que não há solução.

Mostrei sua vida e o fiz revivê-la. Está acabado. A notícia ruim será contada: suas memórias serão tudo o que possuíra a partir de agora. As memórias e a esperança da morte. Bem vindo, meu caro, à Velhice! Hei de chamar-lhe senhor. E o senhor, há de matar-me, sou mente sua que apodrece os pensamentos.

Um brinde à esperança, à vida, à velhice, ao recomeço dos tempos, as amadas lembranças, à minha morte!

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